Buraco Negro

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Era noite escura. Enquanto as luzes da cidade brilhavam sonolentas, ela fomentava um sono inquieto. Os travesseiros dançavam reviravoltas, os cobertores saltavam por cima um do outro e seu corpo rodopiava a cama em sentidos horários e anti-horários.

Um sussurro gritou nos seus ouvidos. Abriu os olhos assustados, procurou na escuridão qualquer movimento invasivo e levantou em um pulo. Tocou a parede e acendeu a luz. Baixa, impenetrável, branca. Nada. Sentou-se na cama, apoiou a cabeça nas mãos entre as pernas. Sua mente estava inquieta. Sentia-se chamada há dias e nem por um segundo parecia estar perto de descobrir o que dentro dela pulsava.

Levantou-se novamente, dessa vez conformada com a noite perdida. Não o sono, muito menos o sonho, apenas uma noite. Abriu a varanda e deitou-se no piso frio. Tocou as ranhuras do chão como quem lê um livro em alto relevo. Procurava a mensagem que ouvira em tudo. Queria explicações.

Respiração baixa, pensamentos controlados em meditação. Descansava o corpo e a mente. De repente, uma luz nos olhos fechados a cegou. Assustada, levantou-se. O único sinal de luz perceptível e luminoso vinha do céu.

Pano preto estrelado brilhando cores brancas imóveis, furtando aos seus olhos uma dança eólica de galáxias. Debruçada no corpo jônico, abraçou o horizonte. Deixou o dia penetrar seu corpo. Tocou a fluorescência de cores pinceladas a um palmo de distância de seu rosto. Fitou a janela. Com um movimento calmo e demorado, abriu o cadeado enferrujado e forte.

Foto de Hana Al Sayed

Pulou.

Para além do óbvio

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Eu não tenho nada para te oferecer. Talvez, quem sabe, um café com baunilha e cristais de mel em um final de tarde de domingo acompanhado por risadas cansadas, mas felizes. De olhares desnudos e honestos.

Eu não tenho atividades nas quais te envolver. Mas qualquer dia, quando estiver bem disposto, podemos pegar o último barco para além mar e descobrir oceanos e revelar pores de sóis coloridos. 

Eu não tenho poesia para te dizer. Quem sabe algumas histórias rabiscadas em guardanapos ou umas palavras lançadas aos sete ventos e embaladas pelo canto dos deuses em encantos.

Eu não tenho uma casa para onde te levar. Posso te apresentar ao meu mundo particular, onde vivo entre jardins de lilases e flores de lis que trilham um único caminho dourado para uma natureza sem fim que deságua em mar.

Eu não tenho uma música pra tocar pra você. Posso ensaiar uns sons na minha harpa imaginária e usar somente as melhores notas – essas que só os gênios e as fadas conhecem – para uní-las em uma canção.

Eu não tenho amigos para te apresentar. Talvez possa abrir o meu álbum particular e indicar as milhares de pessoas que chegaram e saíram; que presentearam alegrias e tristezas em histórias que coleciono junto à minha.

Eu não tenho festas para ir com você. Por dias a fio podemos beber e usar alcalóides e dançar sob a lua cheia no jardim perfumado e ver o sol nascer deitados no gramado molhado.

Eu não tenho livros para te dar. Quem sabe possamos escrever algumas páginas sem pudores e sonhar histórias que jamais aconteceram sob noites de verão ou dias de inverno. E criar personagens parecidos comigo ou com você e dar-lhes finais que só a gente vai saber.

Eu não tenho nada para te oferecer. Melhor assim do que poder dar amores e verões e razões. Senão, talvez, quem sabe, quando o mistério acabar, você parte atrás dele.

Zugzwang

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De uns tempos pra cá, sua rotina consistia nos mesmos rituais diários. Em frente ao espelho do banheiro, após se levantar da cama que ainda não tinha a sua forma e ocupava mais da metade do minúsculo flat “solteirão”, ele se procurava no seu próprio reflexo, perdido.

Onde estaria o surfista que parava o trânsito e era assunto dos maiores burburinhos femininos do bairro? Era másculo, atrevido, sem medo de ser feliz. Abordava qualquer mulher na praia, no prédio, na calçada: era infalível. Seria bem sucedido – e o sucesso chegou mais tarde – e casaria com a menina que nunca dava bola para os seus galanteios – e com ela casou-se mais tarde.

Olhar caído, inexpressivo. Faltava-lhe vida, pulsação, realização. Com a xícara de café em mãos sentava na varanda com o jornal do dia. Nada mais o surpreendia. Nada mais. Checava o celular, onde acessava o calendário, os e-mails, as redes sociais. Mais um dia de trabalho. Só trabalho. Nada mais.

Debaixo do terno, um corpo cansado. Arrastava-se pelo metrô, pelas vias inundadas de pessoas, pela nova vida – nada nova. A separação, antes de libertadora (alguns dizem que é o último estágio), era impactante, solitária, aquisitiva. Tomava conta de tudo o que havia conquistado, aos poucos. Não havia mais jantares entre amigos, filhos correndo dentro de casa, esposa pra esquentar no inverno. Uns poucos quadros impessoais, uma televisão da última geração e uma parede de filmes era o que tinha. Agora.

Sob o nó apertado da gravata, sofrimento, decepção e desapontamento. O que roubara-lhe a voz? Em qual beco da cidade estaria ela gritando, em busca do seu dono? Para onde teriam ido os discursos, as inovações, as expressões que tinham seguidores, fãs, aprendizes?

silêncio

Era difícil viver, novamente, sozinho. Não tinha mais vinte e poucos anos e não sabia mais lidar com as ausências. Ausência, sobretudo, de si mesmo. O seu verdadeiro “eu” tiraria aquilo de letra, divagava perdido no tempo. O tempo. Ele é o tecido de nossas vidas. Não dá lugar para o sofrimento. Não para os ponteiros para a recuperação dos fracassos. Apesar disso, é tudo o que temos.

O presente, afinal, não existe. Ele é incomensurável. Ele é arrastado pelo passado e já vai roendo o futuro. Por isso, imaginava nas suas ilusões, encontraria o menino que outrora perdeu. Encontraria nem que fosse na última virada de esquina. No último suspiro de esperança. Ele estaria ali, em algum lugar sob as suas vistas: embaixo da prancha empoeirada, no verso das fotos de casamento, no sorriso dos filhos. E bastava para ele a certeza do encontro. E seria feliz novamente no pequeno flat, em frente à televisão de luxo, sobre os tapetes da casa da mãe e dos quadros impessoais. Simples assim.

 

O oráculo da tenda

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Era o último dia da “fiesta de gracia”, uma das melhores e maiores festas de rua da cidade. Bandeiras coloridas cobriam os fios que interligavam os postes, balões resplandecentes iluminavam cores das mais diversas. As ruas estavam cobertas de decoração reciclada, produzidas minuciosamente pelos próprios moradores dos bairros. Espanhóis, italianos, brasileiros, franceses, portugueses… todas as nações desfilavam as suas belezas pelos caminhos abertos por barraquinhas, músicas que ressonavam pelas vilas, flores de tons quentes que brotavam pelas esquinas. As famosas casas de chás, vitrines com exposições fantásticas de jamóns diversos, delicatessens com produtos típicos refinados recebiam de portas abertas os curiosos que ansiavam provar os seus produtos.  

Alice, que com seus passos firmes e indecisos andava de cabeça apontada para o chão, encantada com cores e formas e músicas com sons inaudíveis, ao olhar para frente se viu quase dentro de uma tenda. Uma colorida tenda que exalava perfume de flores desconhecidas com uma iluminação íntima. Não viu outra alternativa a não ser penetrar no tecido confuso.

Com seu tato curioso, passou os dedos levemente pelos tramados transparentes pendentes de um teto que não se podia avistar. Nunca em seus sonhos mais criativos conseguiria criar uma atmosfera sequer parecida com aquela. Sentia-se no centro de um jardim de hortênsias lilases, sozinha, livre de qualquer observador. Passou as mãos por entre as chamas das velas acesas, ascendentes e ondulantes.

          – Ora, ora, vejamos quem nos visita – pronunciou uma senhora cujas vestes melindrosas atrairiam olhares normais. Sua voz era suave, macia, convidativa. Os olhos pretos amendoados contavam histórias e pareciam prever futuros. Segurou as mãos de Alice com leveza, como um cumprimento que acaricia.

Alice permitiu a abordagem. A áurea do ambiente a encantara tanto que não via a hora de escutar o que a velha cigana teria a dizer.

            – A mocinha é filha da deusa do amor. Sente-se, filha, beba dessa xícara e te direi um pouco da vida. – colocou nas mãos trêmulas de Alice uma xícara antiga, com a asa esquerda quebrada.

A menina se sentou dentro de um círculo desenhado no chão. Cruzou as pernas naturalmente e bebeu o líquido espesso, grosso e negro que continha na porcelana.

        – Deixe-me ver. – agarrou a xícara pelas laterais e, com expressões alternadas, a senhora começou a pronunciar palavras em língua desconhecida. Estava lendo o futuro de Alice no desenho que a borra de café produzira. – Você, filha da deusa, sofrerá por amor. E esse será o seu destino. Um rapaz está a sua espera para dar fim ao seu sofrimento. Ele tardará a encontrá-la, mas um dia, eventualmente, encontrará. 

Alice sofreu por amor. Não poderia contar quantas vezes, ainda que quisesse. O tal rapaz não apareceu, apesar de com ela conversar diariamente ao olhar a lua em suas fases. Mas estava perto… e ela já podia sentir. 

Leonid Afremov

Apenas mais um desencontro da vida

A partida era inevitável. A lembrança, dolorida.

Olhou pela janela e agraciou o final da tarde com uma só lágrima. Uma lágrima, uma dor no peito e uma sensação de que além do tempo, haveria a angústia da distância. Não queria partir, nem que ela partisse.

Ela era o seu novo mundo, o porto onde poderia se atracar na tempestade e na calmaria do mar. Suas palavras o abraçavam e enlaçavam cada um dos seus medos e anseios.

Ele não poderia voar aquele voo. Deveria desafrouxar o nó da gravata, desafivelar o cinto de segurança e sair correndo pela porta ainda semi-aberta, sob os olhos de todos os passageiros e tripulantes.

Ela estaria no outro portão, a caminho do avesso do país, lendo uma revista qualquer ou um clássico da literatura ou ouvindo música graciosamente, como tudo o que fazia… sabendo ou sem saber.

Ele a olharia de longe, ela sentiria a sua presença a chamando a um encontro. Seus olhares se cruzariam em reconhecimento e se abraçariam. Partiriam no mesmo avião, chegariam no mesmo destino e não duvidariam de onde devessem passar o Natal ou o final de ano, desde que estivessem juntos.

Ele não impediu o comissário de lacrar as portas. Pensou tanto que o impulso perdeu o seu tempo. Existe timing pra tudo na vida… ele acabara de perder um dos mais importantes da vida dele. Conformou-se que não chegara a desafivelar o cinto, olhou para o lado, para outro, e recostou-se na poltrona irreclinável, assim como ele.

Ela fechou o livro, tirou os fones do ouvido, agarrou a bolsa com rapidez e levantou-se. Procurou o número do voo no painel rolante com os joelhos frágeis em balanço nervoso. Ouviu a última chamada, tirou os saltos e saiu correndo.

Perdeu o timing – aqueles poucos segundos que poderiam fazer a diferença. Chegou no portão e outra fila, de outro destino, se formava. Perdeu um último abraço, uma última palavra, um último momento para dizer adeus. Retornou ao seu assento de espera, reabriu o livro, recolocou os fones de ouvido e fechou os olhos molhados.

Era hora de partir, mas não queria ir. Não queria ir ainda que um dia eles voltassem ao mesmo lugar.

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